Perda de cauda em serpentes e anfisbênias explicada a partir de espécimes preservados

Este post do blog foi fornecido por Mario Moura e Henrique C. Costa e conta a #StoryBehindthePaper para o jornal “Unwrapping broken tails: biological and environmental correlates of predation pressure in limbless reptiles“, que foi recentemente publicado no Journal of Animal Ecology.

Este post também está disponível em inglês aqui.

O que uma cauda pode nos contar? Se nós estamos falando sobre cachorros e você é fluente em linguagem corporal canina, então uma cauda conta muito. Porém, e se estivéssemos discutindo sobre serpentes ou anfisbênias? Antes que alguém comece a imaginar uma serpente balançando o rabo, deixe-nos trazer um pouco de morbidez. Algumas interações entre as espécies são muito difíceis de serem observadas na natureza, por causa disso, cientistas podem usar animais preservados para revelar mistérios sobre o comportamento animal. Ao analisarem mais de oito mil espécimes preservados e depositados em 61 coleções científicas, um time de 34 cientistas da América do Sul, América do Norte, e Europa elucidaram fatores que influenciam a perda de cauda em serpentes e cobras-de-duas-cabeças (outro nome para anfisbênias), um comportamento defensivo conhecido como ‘autotomia caudal’ e frequentemente usado para fugir de um predador.

Muitas espécies animais, de caranguejos e polvos, até salamandras e lagartos podem perder um pedaço do corpo (uma perna ou a cauda, por exemplo) para escapar da predação. Porém, alguns animais regeneram partes do corpo, o que pode dificultar investigações sobre a relação entre a ocorrência de autotomia e fatores biológicos e ambientais. Diferentemente de ‘típicos lagartos’ que podem regenerar a cauda (como fazem as lagartixas), as serpentes e anfisbênias podem perder sua cauda somente uma vez*. A peculiaridade desde comportamento nesses répteis os torna um grupo ideal para investigações sobre determinantes de pressão de predação na natureza.

Um espécime de cobra-cipó Philodryas nattereri com cauda cicatrizada. (Foto: Yasmim Cavalcante)

Para cada espécime preservado, o time de cientistas examinou se a cauda estava intacta ou quebra e cicatrizada, além de reunirem informações sobre identidade da espécie, tamanho do corpo, sexo, período de atividade (diurno ou noturno), uso de habitat (subterrâneo, terrestre, aquático, arbóreo), e condições ambientais (temperatura, precipitação, bioma, entre outros) do local onde o espécime foi coletado. O banco de dados foi usado para avaliar se (e quais) fatores biológicos e ambientais afetam a probabilidade de serpentes e anfisbênias terem uma cauda perdida. O estudo publicado no Journal of Animal Ecology é parte de um número especial intitulado Aproveitando as coleções de história natural para entender os impactos da mudança global, e ilustra a importância de coleções científicas para melhorar nosso conhecimento sobre a biodiversidade.

Ao explorar informações inéditas sobre a biologia de 33 espécies de serpentes e 11 de anfisbênias, nós mostramos que espécimes maiores e do sexo feminino possuem maiores chances de perder a cauda. Dentro de uma mesma espécie, animais maiores são normalmente mais velhos e tiveram maiores oportunidades de ficar cara-a-cara com um predador, e possivelmente escapar enquanto abandonavam um pedaço da cauda. Nossos resultados sugerem que espécimes machos possuem menores chances de perder a cauda, provavelmente porque o órgão reprodutor masculino (hemipênis) fica abrigado na base da cauda. Então, se um predador morde qualquer pedacinho extra de cauda, as serpentes e anfisbênias machos podem experimentar problemas reprodutivos.

Um espécime preservado da cobra-corredeira Zamenis scalaris com a cauda quebrada e cicatrizada. (Foto: Esmeralda Alaminos)

A pesquisa revelou que a perda de cauda é mais provável em espécimes que ocorrem em áreas quentes, que vivem em árvores, e são ativos durante o dia. Por exemplo, a recordista de caudas perdidas foi cobra-cipó de Gouvea (Chironius gouveai), uma espécie arbórea e diurna do sul do Brasil em que 75% dos animais preservados tinham caudas perdidas. As evidências acumuladas sugerem que serpentes arbóreas possuem menos possiblidades de fuga quando comparadas com serpentes aquáticas ou que vivem no chão, ou mesmo anfisbênias com estilo de vida subterrâneo. Considerando o fato de que a maioria dos predadores de répteis (muitas aves e também outros répteis) caçam durante a luz do dia, subir em árvores seria um passeio perigoso para as serpentes, cujo ingresso poderia custar os ‘olhos’ da cauda.

A cobra-cipó de Gouvea (Chironius gouveai) do sul do Brasil foi a espécie com maior número de espécimes com caudas perdidas. Foto: Daniel Loebmann.

Como esse conto de caudas perdidas pode ser associado com mudanças globais? Nosso estudo também mostrou que serpentes e anfisbênias de regiões mais quentes possuem maiores chances de perderem suas caudas. Répteis são ectotérmicos, o que significa que eles dependem da temperatura ambiente para aquecer seus corpos. Então, espécimes expostos a temperaturas mais quentes podem ser mais ativos e terem mais chances de encontrar predadores querendo ‘causar’ com sua cauda. Outra possibilidade é que regiões mais quentes possuam alta abundância de predadores, como já demonstrados para regiões em latitudes e elevações mais baixas.

Os museus de história natural e as coleções científicas são verdadeiras bibliotecas de biodiversidade, e os espécimes que abrigam podem nos contar muitas coisas sobre o passado, presente, e mesmo futuro da vida planetária. Espécimes preservados vêm servindo em estudos há séculos, desde pesquisas em taxonomia (catalogação e classificação vida) a investigações sobre diferentes aspectos da biologia das espécies, como dieta, reprodução, malformações, parasitas, comportamentos defensivos como a autotomia, e muito mais. Esperamos que nosso estudo ajude a demonstrar como as coleções científicas são uma fonte inestimável para pesquisas sobre os intermináveis segredos da vida na Terra.

A coleção de répteis do Museu Nacional (MNRJ) no Brasil. (Foto: Paulo Passos)
Leia o artigo:

Moura, M. R., Costa, H. C., Abegg, A. D., Alaminos, E., Angarita-Sierra, T., Azevedo, W. S., Cabral, H., Carvalho, P., Cechin, S., Citeli, N., Dourado, Â. C. M., Duarte, A. F. V., França, F. G. R., Freire, E. M. X., Garcia, P. C. A., Mol, R., Montero, R., Moraes-da-Silva, A., Passos, D. C. … Guedes, J. J. M. (2022). Unwrapping broken tails: Biological and environmental correlates of predation pressure in limbless reptiles. Journal of Animal Ecology, 00, 1– 14. https://doi.org/10.1111/1365-2656.13793

One response to “Perda de cauda em serpentes e anfisbênias explicada a partir de espécimes preservados

  1. Pingback: Tail loss in limbless reptiles explained by specimens from natural history collections | Animal Ecology In Focus·

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